há sol , uma nuvem ali pra não dizer que há um vazio no céu, aqui na superfície um frio daqueles pra quem gosta, seco e um mate pra acompanhar a manhã silenciosa. A noite recheada de cappelletti homônimo num caldo de frango e o Merlot pra fluidificar, embriagar e esquentar este e outros corpos convivas. Pão feito em casa, italianíssimo, vinho e boa conversa. Assim mergulhei num sono quente e reparador de uma semana de muitos sonhos, trabalho e alegrias. Alimentar pessoas, é o que faço desde sempre. a escolha pela informação no afã da juventude: estar nos lugares e tentar ser o mais justo e independente possível, levar a realidade para um grande numero de pessoas, trazer para a bidimensionalidade toda a relevância da notícia, mostrar (antes num papel) e agora pelas telas retroiluminadas a vida como ela é, Nelson Rodrigues, em preto e branco, e lá se vão muitos anos do sonho à realidade. A máquina fotográfica de filme repousa na prateleira com vidro, uma vitrine, a companheira de tantas lutas, de tanta alegria e muita tristeza. Minha primeira pauta foi um acidente, fatal e com crianças, numa ponte o carro invadiu a pista contrária e os destroços espalhados pela pista mexeram e mexem comigo até hoje toda vez que volto aquele lugar. passei mal – muito mal, mas minha prova-de-fogo era real, o cheiro de óleo, gasolina e sangue – muito sangue, me nauseia e traz uma profunda tristeza, pensar naquela família, seu final de semana o almoço na casa dos avõs. uma hora depois ainda muito emocionado estava no aeroporto aguardando a chegada de algum cantor, famoso com sua legião e claque fazendo barulho no saguão do pequeno aeroporto, gente estúpida, ouviria Gilberto Gil cantar no rádio do carro, antes de entrar no mangue com ele – um valente fiat147, num rider de jipes e carros tracionados, com seus pilotos vestidos de barro e empáfia. muitos ficaram pelo caminho, o paraná (sim dou nome aos carros que me movimentam) socorreu e ajudou muitos dos possantes parados, engasgados e submersos na areia e lodo. o final do dia foi com uma procissão sobre um tapete colorido de serragem, a imagem carregada, as personagens concentradas rezando, aquele ar sério e devoto, o cheiro de incenso do pẽndulo e a quermesse alegre e barulhenta depois da horda católica desmanchar a linda arte preparada de véspera para decorar o chão do entorno da praça da igreja. aquele dia de estréia foi duro, meigo, tenso, triste e feliz, um retrato muito fidedigno do que me traria até aqui, 40 anos depois sentado na mesa da cozinha escrevendo, mateando numa manha fria de sábado, o mesmo dia que comecei a trabalhar no jornal.
seis graus
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Comentários
Uma resposta para “seis graus”
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Depois de uma estreia tão intensa, tantona máquina, quanto o Sérgio, merecem essa manhã de sábado! Ao longo da vida, muitos sábados de sabedoria!
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